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Carta aberta a John Textor

    
   
John Textor, dono do Botafogo.                                                          Foto: Site do Botafogo/Reprodução.


Artigo de Paulo Matuck


Dear John,

Sei que o tempo está curto. Afinal, você tem que procurar um técnico para o Botafogo, lídar com as dificuldades financeiras em que meteu o Lyon, encontrar um comprador para o Crystal Palace, onde deu com os burros n'água e, de quebra, ainda buscar um clube da Premier League para comprar e, naturalmente, replicar seu estilo apaixonado e confuso de administrar.

Mesmo assim, espero que tire alguns minutos para ler essa carta. 

Sei que o português não é uma língua que domina. Mas você tem muitos assessores que podem ajudar a superar essa pequena dificuldade.

Então, aqui vai um Conselho não solicitado.


Você está há mais de dois anos no Brasil. Já passou da hora de mostrar interesse em apreender a língua local.

Não sei se está trabalhando isso. Porém, suas entrevistas, sempre em inglês, indicam que não.

O espetacular escritor Ariano Suassuna, um apaixonado pela língua de Camões, se vivo fosse, ficaria abismado com isso.

Afinal, por que insistir na pobre língua inglesa diante da possibilidade de mergulhar na magnífica linguarem herdada por nós dos colonizadores lusitanos?

O desprezo pela língua inglesa de Suassuna talvez fosse exagerado. A comparação, contudo, não.

John Textor, dono do Lyon.                                                                                           Foto: Reprodução

Aliás, o paraibano seria uma boa opção para começar a se familiarizar com a língua. Suas obras estão disponíveis em todo lugar. Inclusive nas telas de cinema.

Porém, vou lhe dar outra dica se quiser se esforçar um pouco para apreender o português. Faça isso com prazer.

Minha paixão pela escrita começou com uma série de livros chamada "Para gostar de ler". Não tenha dúvidas. Ela entrega o que o título promete.

São crônicas curtas, leves e brilhantes. Um prazer de ler. Fora de catálogo, talvez seja difícil de achar. Peça aos seus scouts, que encontram jogadores pelo mundo afora, para entenderem suas pesquisas aos sebos. Certamente encontrarão essa preciosidade.
 

Entre os autores está Luís Fernando Veríssimo, o maior cronista brasileiro. A escalação de escritores, contudo, conta ainda com Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino.

É baseado neste último que ofereço mais um conselho que não foi pedido.

O mineiro de Belo Horizonte, Sabino, morreu com 80 anos. Não sei se torcia para o Cruzeiro ou Atlético-MG. Talvez tivesse simpatia por um clube carioca, até o Botafogo, uma vez que escolheu morar no Rio. Ou mesmo nem gostasse de futebol. 

Contudo, deixou uma herança rica. Não somente literária. Se você acha que Anitta é cantora e funk é música, ouça Verônica Sabino.

Mas esse não é o assunto. 

Sabino, que ficou mais conhecido por escrever o Grande Mentecapto, explicou em uma de suas mais saborosas crônicas a diferença entre chatear e encher.

Se a minha memória não me trai, a história era assim

Uma pessoa escolheu um número de telefone aleatório e disparou quando foi atendido:

— Quero falar com o Waldemar?
 
O interlocutor, polidamente, respondeu:

— Aqui não tem nenhum Waldemar, deve ser engano.

A ligação, então, estava concluída.

Dez minutos depois, uma nova ligação para o mesmo número.

 Você pode chamar o Waldemar, por favor? 

Em um tom nem tão polido, a resposta veio ainda em bons termos.

 Como falei, não há Waldemar aqui.

Fim da ligação.

Dez minutos depois, nova chamada para o mesmo número.

 O Waldemar já chegou?

Nem vou mencionar a resposta. A parte da chateação estava encerrada

Para finalizar, nova ligação dez minutos depois.

  Aqui é o Waldemar, alguém deixou recado para mim?

Aí já era encher.

Nessa procura por um técnico para o Botafogo, vi que se chateou com as recusas de André Jardine, Rafa Benítez e Roberto Mancini.

Agora, receber um não do Vasco, um treinador que não faz muito tempo dirigia um time da Segunda Divisão, encheu a paciência.

É hora de tomar uma atitude. 

Bem perto de você mora o Joel Santana. 

Já ouviu falar nele? Pergunte aos seus numerosos scouts.

Vão lhe contar sobre o King of Rio. Vencedor de 380 títulos estaduais em 200 estados (como não conhece o português, indico que aqui há uma hipérbole).

Santana, de 76 anos, se aposentou culposamente. Não tinha essa intenção. Nem propostas para poder prosseguir a cadeira.

Um telefonema seu faria certamente com que trocasse o pijama pelo uniforme do Botafogo. Sequer seria uma novidade. Passou pelo clube em três oportunidades. Consulte o departamento pessoal.

De quebra, você ainda teria facilidade de comunicação. Dá para falar com ele em inglês. É um de seus pontos fortes.

Pronto para começar a trabalhar, conduziria o Glorioso ao tricampeonato da Taça Rio.

Então, sem procrastination ou espaço para frustrations. Call Papai Joel.

Best wishes,

Paulo

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